Mestre Cafuné, 80 anos, lembra bem de quando foi à escola de capoeira de mestre Bimba (1899-1974) pela primeira vez. Percorreu uma longa distância, do Polo Petroquímico de Camaçari, onde trabalhava, ao Pelourinho. Tinha lido sobre o mestre num jornal e decidiu conhecê-lo. “Eu era uma pessoa tímida, medrosa. Passei pela Baixa dos Sapateiros com medo, depois subi essa ladeira aí com as pernas já tremendo”, lembra. Bateu na porta e disse ao capoeirista que queria tomar algumas aulas. Foi botado para fora. Naquela época, Cafuné se chamava Sérgio Dória.

“Minha cabeça foi xingando ele de todos os nomes possíveis por ter me tirado de lá. Fiquei muito chateado”, brinca. Até que descobriu o motivo da expulsão. Na porta, uma plaquinha dizia: “Visita, 2 mil cruzeiros. Mensalidade, 2 mil cruzeiros”. Resolveu pagar a mensalidade, voltou a mestre Bimba e, naquele dia, recebeu o primeiro ensinamento. “Ele me disse: ‘Quando você chegar num lugar, não entre de primeira. Primeiro você observa, veja quando pode entrar, quando pode sair, tome cuidado’. A primeira aula que ele me deu foi essa”. Pode até parecer coisa pouca, mas, garante Cafuné, é um conselho para a vida. “Ele nos ensinava a ter respeito pelos espaços, ser mais observador, mais equilibrado, é algo que tem um sentido muito amplo”.

Em 2018, a capoeira regional, criada por Manoel dos Reis Machado, o mestre Bimba, comemora 100 anos de existência. Em setembro de 1918, ele criou e começou a aplicar o método de ensino usado até hoje. E não foi um caminho fácil. Manoel começou a praticar a luta – ou dança, ou jogo, como preferir – aos 12 anos. “Meu avô era lutador de batuque, uma luta africana que parece com a capoeira. Por muito anos, meu pai acompanhou o meu avô e foi aprendendo”, conta Manoel Machado, mestre Nenel, filho de Bimba. Como o esporte era ilegal e não podia ser praticado e muito menos ensinado, alguns dos movimentos se perderam com o tempo. “Para preencher esse vazio, meu pai uniu a capoeira com o batuque. E aí nasceu a capoeira regional”, diz Nenel. Na época, batizou a invenção de luta regional baiana. “Se levasse o nome de capoeira, poderia ser criminalizado, a capoeira estava no Código Penal Brasileiro, não podia”, conclui Nenel.

Em 11 de outubro de 1890, o presidente Deodoro da Fonseca proibiu a prática por meio do decreto 847. No documento consta que é proibido “fazer nas ruas e praças públicas exercício de agilidade e destreza corporal conhecida pela denominação capoeiragem: andar em carreiras, com armas ou instrumentos capazes de produzir lesão corporal, provocando tumulto ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal”. A pena era prisão de dois a seis meses.

Aos “chefes”, ou seja, professores, a pena dobrava e, em caso de reincidência, podia chegar a três anos de prisão. Estrangeiros que infringissem a lei eram deportados de pronto depois de cumprirem a pena. Era preciso bravura.

E foi com bravura que, em 1932, Bimba fundou a primeira academia no bairro do Engenho Velho de Brotas. O alvará só veio em 1937, quando a prática deixou de ser ilegal. Mesmo sob tantos riscos, conta Marinalva Machado, filha do mestre, ele nunca pensou em desistir. “Era uma missão de vida. Ele era muito determinado, tinha certeza de que iria conseguir levar a nossa arte para o resto do Brasil e do mundo”, diz dona Nalvinha, como gosta de ser chamada.

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Um dos momentos mais importantes para o reconhecimento da luta país afora foi quando o capoeirista se apresentou para Getúlio Vargas numa visita do então presidente a Salvador, em 1953. Mesmo que já não fosse crime, explica dona Nalvinha, a prática ainda não tinha tanto espaço fora da Bahia. “O presidente se encantou e ajudou a divulgar a capoeira, a levar esse legado para outros estados. Disse que era o único esporte verdadeiramente brasileiro”, lembra ela. Mas foi só em 1972, dois anos antes da morte do mestre, que a capoeira foi reconhecida como modalidade desportiva pelo Ministério da Educação e Cultura.

Para celebrar o centenário da capoeira regional, a Fundação Mestre Bimba (FMB) organizará, entre os dias 19 e 22 deste mês, uma porção de atividades gratuitas espalhadas pela cidade. Além de seminários, apresentações de capoeira, oficinas de maculelê, samba de roda e puxada de rede, haverá o lançamento do livro Bimba, Um século da Capoeira Regional, escrito por mestre Nenel. O lançamento será no dia 22, às 10h, no Teatro Sesc-Senac Pelourinho. “É a nossa memória, a memória de um povo. Vejo meu pai como um ídolo, alguém que pensava muito além do tempo dele, não sabia nem ler nem escrever e conseguiu transformar algo perseguido pela sociedade em arte”, diz Nenel.

Referência

Pendurados nas paredes da fundação, retratos marcam a história do esporte baiano. Entre os alunos destacados nas paredes estão figuras conhecidas, como o senador Otto Alencar e Luiz Carreira, chefe da Casa Civil da Prefeitura de Salvador. Na capoeira, o apelido dele é Secretário. “Mas são mais de 200 discípulos e 600 alunos. Alguns deixaram a capoeira depois da morte de Bimba, acabaram perdendo a referência. Ele era quem nos animava a continuar”, lamenta Cafuné.

Hoje, essa herança está em mais de 160 países. Há núcleos da Filhos de Bimba Escola de Capoeira nos Estados Unidos, Canadá, Líbano, Croácia, França e Reino Unido. Todos os anos, dona Nalvinha vai aos Estados Unidos dar aulas de samba de roda. Lá, diz, sente-se mais bem recebida do que na Bahia.

“Não sei dizer o motivo disso, mas tem muito preconceito. Temos o preconceito racial… uma vez, uma pessoa daqui trouxe um amigo estrangeiro que queria aprender capoeira. Perguntei se ele iria se matricular também. E ele disse: ‘Não, Deus me livre! É só ele’”.

Para manter viva essa memória na Bahia, a FMB mantém o projeto Capoerê, que oferece aulas para crianças e adolescentes de bairros da periferia de Salvador. “Temos casos de meninos que já estavam entrando no crime, mas foram resgatados pela capoeira. Se eles estão em aula, não estão mais fazendo o que faziam antes. E tirar pelo menos um menino dessa vida já faz toda a diferença”, opina Nalvinha. Muitos desses alunos se tornam professores, e alguns deles ensinam fora do Brasil. “Perceba que a ideia é manter o legado circulando, viajando, alcançando mais culturas”, diz a filha do mestre.

No último ano de vida, aos 74 anos, mestre Bimba deixou a Bahia. Não se sentia valorizado pelo governo e, a convite de um ex-aluno, mudou-se para Goiânia. E foi lá, a 1.658 quilômetros de casa, que morreu. Mas a filosofia dele persiste – na Bahia, em Goiás, em tudo quanto é canto a que chegou. Quem explica é Cafuné: “É a arte de viver bem. Ele nos ensinava tudo sobre você viver bem”.

Fonte: 

Bruna Castelo Branco | Fotos: Adilton Venegeroles | Ag. A TARDE

http://www.atarde.uol.com.br

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